ANÁLISE

EM 2025, 7 EM CADA 10 KWANZAS DE PRÉMIOS PASSARAM PELA MEDIAÇÃO

Os números mais recentes do mercado segurador angolano, publicados pela ARSEG, permitem uma leitura que merece particular atenção. Em 2025, as seguradoras emitiram cerca de 578,4 mil milhões de kwanzas em prémios, enquanto a produção realizada através da mediação atingiu 408,4 mil milhões de kwanzas. Dito de forma mais simples: 7 em cada 10 kwanzas de prémios produzidos no mercado segurador angolano passaram pela mediação.

O número, por si só, é suficientemente expressivo para afastar qualquer visão da mediação como um canal meramente acessório da actividade seguradora. Pelo contrário, os dados demonstram que agentes e corretores ocupam hoje uma posição central na cadeia de distribuição dos seguros em Angola. Quando 71% da produção passa por este canal, falar do desenvolvimento do mercado segurador implica, necessariamente, falar da qualidade, capacidade e alcance da sua rede de mediação.

Em 2025, o mercado contava com 5.038 mediadores, dos quais 4.963 são pessoas singulares e 75 são pessoas colectivas. Mais importante do que a dimensão quantitativa desta rede é perceber o potencial que ela encerra. Em um país com uma extensão territorial considerável, marcada por assimetrias no acesso aos serviços financeiros e onde a presença física das seguradoras continua concentrada sobretudo nos grandes centros urbanos, a mediação pode constituir um dos principais instrumentos de capilaridade do seguro.

O mediador está, muitas vezes, mais próximo do consumidor do que a própria seguradora. É quem identifica uma necessidade de protecção, explica o produto, esclarece as coberturas, acompanha a contratação e, idealmente, permanece ao lado do cliente quando ocorre o sinistro. Essa proximidade confere-lhe uma função que ultrapassa largamente a venda. O mediador deve ser, simultaneamente, distribuidor, educador, consultor e, como corolário, um factor de confiança no sistema.

É precisamente por isso que, entendo que os 71% devem ser lidos não apenas como um sinal de força, mas também de responsabilidade.

Quanto maior for o peso da mediação na produção, maior será a influência dos mediadores na percepção que os consumidores formam sobre os seguros. Uma explicação deficiente das coberturas, uma expectativa mal gerida ou a colocação de um produto desajustado às necessidades do cliente não afectam apenas a relação entre mediador e segurado. Em última análise, afectam a confiança no próprio sector.

Daí que o crescimento da mediação tenha de ser acompanhado pelo reforço da formação, da ética profissional, do cumprimento dos deveres de informação e, sobretudo, da capacidade de compreender as reais necessidades de quem procura protecção. Não basta vender mais seguros; é necessário vender melhor.

Há, contudo, uma segunda leitura que considero ainda mais importante. Um mercado com elevada intermediação não é necessariamente um mercado com elevada inclusão seguradora. É possível que grande parte da produção continue concentrada nos mesmos clientes empresariais, nos grandes centros económicos e nos ramos tradicionalmente mais relevantes. O próprio relatório mostra que, dos 408,4 mil milhões de kwanzas produzidos através da mediação, cerca de 371,9 mil milhões, ou 91%, correspondem aos ramos Não Vida, enquanto Vida representa apenas 9%.

Por isso, o próximo desafio não deverá ser medido apenas pelo número de mediadores existentes ou pelo volume de prémios que estes conseguem colocar. Deve também ser avaliado pela capacidade da mediação de chegar a novos segurados, novas geografias e novos segmentos da população e da economia.

É aqui que os micro-seguros, os novos canais de distribuição, a digitalização e a simplificação dos produtos podem encontrar na mediação um aliado particularmente relevante. O próprio Relatório de Mercado reconhece que Angola continua historicamente caracterizada por um baixo nível de penetração dos seguros e associa as reformas recentes à necessidade de massificar o acesso à protecção seguradora.

A oportunidade, portanto, parece evidente. Se os mediadores já conseguem fazer chegar às seguradoras sete em cada dez kwanzas produzidos pelo mercado, esta mesma capacidade de distribuição pode ser orientada para alargar a base de consumidores de seguros.

Naturalmente, isso exigirá mudança. O mediador do futuro não poderá limitar-se a esperar pelo cliente que já conhece o seguro ou pela empresa que contrata porque é obrigada ou porque necessita de proteger um activo relevante. Terá de ajudar a criar procura, explicar riscos, demonstrar utilidade e transformar conceitos técnicos numa linguagem que faça sentido para famílias, pequenos comerciantes, agricultores, trabalhadores independentes e micro, pequenas e médias empresas.

Os 408,4 mil milhões de kwanzas de prémios mediados em 2025 mostram que a mediação já conquistou peso económico suficiente para influenciar decisivamente a trajectória do mercado. Por isso, penso que a questão que agora se deve colocar é outra: como transformar esse peso em maior penetração, inclusão e confiança?

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